Três riscos iminentes até 2021

22
Março
 
 

As forças da mudança tecnológica e da descentralização geopolítica estão preparadas para transformar o mundo nos próximos anos. Aqui estão os três maiores riscos para ficar de olho em mundo que muda constantemente. 

1. China

Com todas as atenções voltadas aos conflitos no Oriente Médio, à crise política na Europa e ao resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos, é fácil esquecer que a maior mudança estrutural no sistema global é mesmo a ascensão da China. Isso vale para se ela tiver sucesso ou fracassar. 

Embora a estabilidade político-econômica da China não tenha sido questionada nos relatórios anuais de riscos do Eurasia Group dos últimos anos (graças a um nível relativamente alto de estabilidade até agora), decisões difíceis precisarão ser tomadas em duas áreas: economia - abrir o sistema financeiro e lidar com créditos ruins, ou reverter para o controle topo-base - e política - permitir uma descentralização no sistema político, ou determinar que isso seria uma ameaça muito grande para a sobrevivência do regime existente. 

Como o poder e a influência da China serão muito maiores até 2021, a resposta do país a essas duas reformas desafiadoras terá importância crucial para o futuro da ordem mundial. Se bem-sucedida, a China estará no rumo certo para criar um grande número de empresas dominantes em toda a Ásia e competitivas mundialmente. Um número cada vez maior de países estará alinhado aos padrões e à arquitetura chineses, bem como ao yuan. Economias como o Paquistão e as repúblicas da Ásia Central, a Rússia e vários países da África Subsaariana verão a China como seu parceiro mais importante; ao mesmo tempo, aliados tradicionais dos Estados Unidos, como a Austrália, Estados europeus e até o Japão buscarão compensar inclinando-se para uma relação mais equilibrada com a China. As instituições lideradas pelos Estados Unidos terão uma erosão, em muitos casos ficando mais fracas do que as concorrentes em áreas com liderança chinesa. Ou os Estados Unidos vão no sentido de construir blocos ou vão buscar um meio-termo, embora 2021 seja cedo para isso dar certo – deixando o mundo ainda mais fragmentado do que está hoje. 

Se o processo de reforma ficar confuso – provocando discórdias internas ou uma resposta linha dura por parte do governo –, o alcance chinês será consideravelmente reduzido. Ainda assim, provavelmente haverá mais tensão em áreas que os chineses veem como estando “em sua esfera”, como Taiwan, Hong Kong e os mares do Leste e do Sul da China. Aumentará a probabilidade de conflitos cibernéticos e proxy fights (disputas para controle de empresas de capital aberto) com os Estados Unidos. Um consenso mais difuso liderado por Washington ainda conseguiria determinar resultados econômicos, mas um retorno a grandes conflitos de poder geopolítico criaria riscos muito mais altos na Ásia e na Europa. 

2. Energia e o Oriente Médio

“Reduzir para durar mais” é nosso mantra – um ambiente de crescimento menor e uma revolução energética movida por ganhos em eficiência e pelas fontes renováveis, levando a preços reduzidos do petróleo. Com o dinheiro saindo de países seriamente dependentes do setor de óleo e gás – Venezuela, Rússia e muitas regiões da África Subsaariana –, eles terão grandes desafios. 

O risco de instabilidade aumentará no Oriente Médio em especial se não houver reformas econômicas, conforme três fatores por trás da instabilidade relativamente controlada nas últimas décadas provavelmente se dissiparem:

Os Estados Unidos e seus aliados fizeram esforços diplomáticos e econômicos significativos para apoiar a segurança da região. Apesar da governança fraca, as populações locais estavam relativamente quiescentes. Havia dinheiro suficiente para manter a lealdade e, se ela falhasse, a ordem e a disciplina. 

Com esse equilíbrio (altamente imperfeito) agora ausente, o resultado provável será um retorno, em grande parte do Oriente Médio, para um estado pré-Vestfália. Muitos dos países centrais da região não conseguirão mais aplicar as decisões em seus territórios, permitindo que atores subestatais se tornem as principais fontes de governança. 

O potencial de uma grave instabilidade na região tem grandes implicações para além de suas fronteiras, mais óbvias para o Oriente Médio “mais amplo” – pedaços do norte, oeste e leste da África, centro e sul da Ásia e região do Cáucaso. Na Europa, os custos das ameaças terroristas e dos refugiados fará as prioridades políticas se mudarem da responsabilidade fiscal para a segurança, o que reduzirá o crescimento e estimulará a descentralização – uma ameaça maior, de longo prazo, para a União Europeia. Também é uma ameaça em potencial para os Estados Unidos e o mundo como um todo, à medida que a assimetria nos conflitos se tornar mais desafiadora – especialmente no âmbito da segurança cibernética, mas também na biossegurança e talvez até na nuclear. 

3. Tecnologia e o Estado

Por fim, tratando-se das consequências da tecnologia para os governos, o poder transformador do crescimento tecnológico explosivo irá alterar fundamentalmente o cenário geopolítico de várias maneiras: 

-Segurança e o potencial de uma verdadeira combinação entre órgãos militares, indústria e tecnologia.

Novas tecnologias apresentam um desafio fundamental ao tradicional papel do governo de assegurar a estabilidade e garantir a aplicação de regras. Em um cenário, o Estado mantém seu formato atual e é suplantado pelo setor privado e por oportunistas, uma vez que o governo central não poderá mais fornecer serviços que garantam sua autoridade. Em outro, o Estado se torna um protagonista tecnológico no espaço soberano – da mesma forma que atualmente é no espaço militar –, pesando categoricamente a balança para o lado da segurança em detrimento da privacidade. 

-Natureza do emprego

Com a Revolução Industrial Digital, as tecnologias de informação provavelmente mudarão drasticamente os modelos trabalhistas em uma ampla gama de setores até 2021 – especialmente devido a melhorias nos campos da automação e da inteligência artificial. 

-O poder do pequeno

A capacidade crescente da tecnologia para controlar grandes movimentos deve levar a uma reação igualmente poderosa em comunidades locais que tendam à proximidade e à interação humana. Modelos mais efetivos de governança surgirão no nível local – tanto em cidades cosmopolitas o suficiente para essa ligação local mostrar-se mais forte e mais durável do que outras formas de identidade, como em subúrbios mais ricos, onde a relativa homogeneidade permite que se evitem problemas de ação coletiva que acossam as sociedades.
Há o tema geral da descentralização em todos esses três riscos principais. A desconcentração do poder será uma das questões mais importantes a serem abordadas pela China para garantir o sucesso e a estabilidade. No Oriente Médio, o fracasso do Estado significa que formas efetivas de governança serão cada vez mais encontradas no nível não governamental. E a explosão da tecnologia no cenário geopolítico significa distopia para alguns – e empoderamento de comunidades menores, para outros.

Num período em que estaremos preocupados principalmente com as consequências dos descontentamentos com a globalização, muito do que funcionará será regional.

*Por Ian Bremmer, presidente e fundador do Eurasia Group
Fonte:http://www.businessleaders.com.br/

 
 

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