Mudanças climáticas são os novos desafios de inovação na agricultura

05
Janeiro
 
 

O economista Thomas Malthus, em 1798, defendia o controle do aumento populacional em sua teoria, conhecida como malthusianismo, na qual explicava que a população crescia em progressão geométrica (exponencial), enquanto a produção de alimentos crescia em progressão aritmética (linear), ou seja, o crescimento da população estaria em descompasso com a produção de alimentos, gerando como consequência a fome. O desenvolvimento e o uso de tecnologias agrícolas apropriadas elevou a produtividade de alimentos no mundo, de tal maneira que a fome há muito deixou de ter relação direta com a falta de produção de alimentos. Em 1970, por exemplo, o mundo tinha 3,6 bilhões de pessoas e uma produção per capita de 0,306 t em uma área colhida per capita de 0,205 hectares. Em 2005, a produção per capita foi de 0,344 t em uma área colhida per capita de 0,106 hectares.

Estes avanços, no entanto, estão ameaçados. O recente Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, de março de 2014, faz um alerta sobre os impactos das mudanças climáticas na produtividade agrícola, que pode agravar a insegurança alimentar que atinge hoje 800 milhões de pessoas, principalmente em áreas urbanas e regiões castigadas pela fome. Isso decorre do fato de que a agricultura ainda é uma atividade dependente de fatores climáticos cujas modificações podem causar alterações na intensidade de colheita, devido a uma mudança no número de graus-dia de crescimento, e na ocorrência e na severidade de pragas e doenças.

Dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), baseados na produtividade média da soja, mostram que esse grão acumulou entre 2003 e 2013 mais de US$ 8,4 bilhões em perdas relacionadas às mudanças climáticas no Brasil. A produção de milho perdeu cerca de US$ 5,2 bilhões no mesmo período. É preciso ter em conta que as mudanças climáticas afetam toda a cadeia produtiva, desde os processos de preparação das áreas para produção até a distribuição dos produtos.

Portanto, além do desafio de alimentar 9,6 bilhões de pessoas, população prevista para 2050, que demandará um aumento de 70% na produção de alimentos nas próximas quatro décadas, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas, a agricultura também terá de transformar o aquecimento global numa oportunidade de inovação, tanto para a criação de tecnologias para o desenvolvimento de plantas e organismos adaptados a novos cenários climáticos, quanto para a melhoria de processos produtivos e de distribuição, e para a construção de mecanismos para a redução da concentração atmosférica dos gases do efeito estufa.

Os próximos passos para a manutenção e ampliação da produtividade agrícola envolvem, por um lado, inovação e, por outro, sustentabilidade. Mesmo países sem histórico com a questão ambiental vêm se mobilizando para adaptar-se aos novos cenários envolvendo a produção e a produtividade agrícola. Em abril deste ano, por exemplo, a China endureceu a lei contra poluidores. Em 25 anos, é a primeira emenda à legislação chinesa relativa à proteção ambiental, sendo que essa medida só veio depois que pesquisas apontaram que 16% do solo do país estava poluído, quase um quinto de áreas de cultivo foram contaminadas por elementos inorgânicos, como o cádmio, que 60% dos lençóis freáticos analisados no país estão contaminados e que a água não podia ser consumida sem tratamento. Os Estados Unidos também anunciaram, em junho deste ano, novas leis regulamentando as emissões das usinas elétricas no país, que funcionam principalmente à base de carvão, para reduzir suas emissões de CO2 em 30% até 2030. 

O Brasil, neste contexto, tem posição privilegiada. Além do potencial para ampliação da produção agrícola, possui a maior diversidade biológica do planeta, abrigando entre 15% e 20% do número total de espécies, em seis grandes biomas: Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Pampa. Acrescente-se a isso a imensa diversidade ambiental e disponibilidade de recursos hídricos. A biodiversidade e os ecossistemas ajudam tanto na adaptação às alterações climáticas, como contribuem para atenuar os seus efeitos.

A tendência é que, nos próximos anos, o nosso país tenha um papel preponderante no mercado agrícola global, podendo também assumir uma posição estratégica como produtor de biocombustíveis que, com os avanços tecnológicos, podem se tornar uma alternativa aos de origem fóssil, uma vez que a produtividade por hectare de combustível derivado de cana é bem superior a da beterraba europeia e a do milho americano.

*Adalberto Luis Val é Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge.

Fonte:http://businessleaders.com.br/

 
 

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